5G: o que vai mudar na forma como conduz

Rapidez, segurança e conectividade

Se a chegada da internet mudou muita coisa, a chegada das comunicações 5G vai mudar muito mais. Ao nível da condução, o seu carro vai passar a "falar" com os semáforos, com os outros carros e até com a própria estrada.

Resultado: vai ser tudo mais rápido, seguro e confortável, até porque os carros vão poder guiar sozinhos.

Portugal vai iniciar a próxima revolução digital em 2020. Chama-se 5G e é a quinta geração das comunicações móveis, uma tecnologia que ao longo da próxima década vai alterar o funcionamento das sociedades, com impacto na segurança rodoviária e na mobilidade.

Se com o sistema de ligações atual (4G) o volume de dados já é enorme, com as ligações 5G vai crescer exponencialmente.

Para se ter uma ideia do tráfego atual do mundo digital, por cada minuto que passa, são enviados mais de 18 milhões de SMS e mais de 180 milhões de e-mails. Em 60 segundos são visualizados mais de 4,5 milhões de vídeos no Youtube, assim como são gastos cerca de um milhão de dólares em compras online e feitas mais de 3,8 milhões de pesquisas no Google. Tudo isto nuns meros 60 segundos.

O que é a tecnologia 5G?

A rede 5G vai potenciar tudo isto. O segredo reside na transmissão de dados, que passa a ser ultrarrápida: há estudos que indicam uma velocidade 10 a 20 vezes mais rápida que a 4G, e que o volume de dados passa dos atuais 20 Megabits por segundo (Mbps) para os 500 a 1500 Mbps. Ou seja, no mínimo 25 vezes mais dados a serem transmitidos a  cada segundo.

Outra das enormes vantagens 5G é a capacidade de ligar em simultâneo um número muito mais elevado de equipamentos (telemóveis, computadores, máquinas, automóveis, etc.), com enormes reflexos nos vários modelos de negócio.

Estima-se que em 2020, com a tecnologia 5G ainda a dar os primeiros passos (a União Europeia quer pelo menos uma cidade por país com 5G a funcionar em pleno até daqui a um ano), vão estar em ligação cerca de 30 mil milhões de equipamentos em todo o mundo.

Dois exemplos rodoviários:
1. Vai a conduzir o seu carro (ligado através de 5G) e chega a um cruzamento com semáforos. Os semáforos verificam se outros carros vão cruzar-se consigo, abrindo o sinal verde, caso o caminho esteja livre. Mas se os semáforos detetarem, por exemplo, uma ambulância em aproximação, podem retê-lo com o sinal vermelho até à passagem do veículo de emergência.

2. Outro exemplo mais significativo é o da criança distraída que atravessa a rua. Se ela possuir um telemóvel ligado em 5G, o seu carro vai ser avisado desse imprevisto e travar automaticamente.

O ESSENCIAL SOBRE AS COMUNICAÇÕES 5G

5G

RAPIDEZ. A quinta geração de comunicações móveis vai ser 10 a 20 vezes mais rápida do que a atual, a 4G.

DADOS. A transmissão de dados vai aumentar no mínimo 25 vezes, passando dos atuais 20 Megabits/segundo para os 500 a 1500 Megabits/segundo.

Com estes valores, a 5G vai permitir comunicação em tempo real, como streaming de áudio e vídeo, e um número de utilizadores em simultâneo muito mais elevado.

CONECTIVIDADE. Com a 5G tudo passa a estar ligado.

Mobilidade e segurança

É aqui que entra a mobilidade e a segurança rodoviária, setores em que a palavra a usar é mesmo disrupção: as comunicações 5G vão romper a médio prazo com o atual paradigma da mobilidade, devido ao rápido desenvolvimento dos carros autónomos de nível 5, que dispensam a intervenção dos condutores – atualmente já se atingiu o nível 3 de automação.

A rapidez, alcance e estabilidade 5G permitirá maior segurança e uma melhor gestão de tráfego dos veículos autónomos, mas as previsões apontam para essa realidade apenas na segunda metade da próxima década.

A logística (como o abastecimento das cidades) e o transporte de mercadorias vão também sofrer grandes alterações na sua organização com a chegada da quinta geração de comunicações móveis.

Toda a fluidez do trânsito das cidades vai ser diferente em hora de ponta e fora dela, pois deixam de haver momentos em que se está parado num semáforo vermelho sem que nada o justifique em termos de trânsito.

Mais importante do que os resultados na fluidez do trânsito são os resultados na segurança rodoviária. Está prevista uma grande redução de acidentes com carros conectados e carros autonónomos, bem como uma enorme redução na sua gravidade.

Além dos carros autónomos, os carros conectados (veículos a combustão com condutor, mas com sistemas de ajuda à condução ligados através de 5G) vão também usufruir desta revolução tecnológica.

Perigos e ameaças 5G

É oficial: “as mudanças tecnológicas 5G vão aumentar as possibilidades de ataques e o número de potenciais pontos de entrada dos atacantes na rede”.

Esta é uma das frases que abre as conclusões de um relatório publicado em outubro pela Comissão Europeia, onde é feita a avaliação de risco da cibersegurança das Redes 5G, envolvendo os 28 países da União Europa.

Integridade e vulnerabilidade do sistema, dependência técnica dos fornecedores, crime organizado e estados hostis são algumas das ameaças apontadas no relatório.

É referida até a possibilidade dos piratas informáticos conseguirem neutralizar a capacidade de atuação dos serviços de emergência de um país, assim como interromperem em larga escala o fornecimento de eletricidade numa região.

Tendo em conta que as redes 5G vão ser a base de uma economia e de uma sociedade cada vez mais digitalizadas, e que milhões de equipamentos e sistemas, incluindo os de setores críticos como a energia, transportes, banca, saúde, sistemas industriais de controlo, com informação sensível, e sistemas de segurança, é caso para dizer que o risco é muito elevado.

Cada vez mais palavras como “phishing” e “ransomware”, entre outras, entraram no léxico comum dos portugueses. Muitos já devem ter recebido e-mails que tentam roubar as senhas das suas contas (Phishing). Alguns já devem ter visto os ficheiros do seu computador bloqueados, com um pedido de resgate para os libertar, sob ameaça de serem apagados (Ransomware).

Mas num futuro que envolva carros autónomos isto pode significar, por exemplo, que um pirata informático possa desviar o veículo da sua rota original e obrigar o utilizador a pagar uma quantia para retomar a viagem. Ou a possibilidade de um atacante causar o caos numa cidade, dessincronizando os semáforos.

Estas hipóteses são, para já, do domínio da especulação, mas a possibilidade de se tornarem reais é enorme. Já no presente, com os carros conectados, os perigos são também reais. 

Com a 5G pode haver acesso à informação das viagens realizadas, podendo mesmo um pirata tomar controlo de várias funções do veículo e, no limite, desligá-lo em andamento.

Isto mesmo já foi experimentado num JEEP, obrigando-o a ficar parado numa autoestrada norte-americana. Outra notícia recente foi a do roubo de chaves digitais dos modelos da Tesla, permitindo o acesso total ao carro.

DADOS DO CARRO SÃO SEUS E NÃO DO FABRICANTE

Apesar do reforço de direitos dos proprietários de automóveis através do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD), o controlo da informação recolhida pelo veículo e a livre escolha do prestador de serviços ainda não estão garantidos.

5G

A FIA lançou a campanha “My Car, My Data”, onde defende que os dados dos veículos conectados são pessoais, devendo assim os titulares consentir na utilização por terceiros, decidindo quem acede e para que finalidade. O mesmo entendimento tem sido defendido pelo Tribunal de Justiça da União Europeia.

Segundo a FIA, sem legislação clara e específica relativa à portabilidade dos dados, os direitos dos titulares estarão comprometidos, uma vez que os prestadores de serviços que não o fabricante poderão ver-se confrontados com demoras na disponibilização de dados que se afigurem essenciais à prestação do serviço, impedindo-os de providenciar serviços equivalentes aos do fabricante.


in Revista ACP | dezembro 2019
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